Um dia, quando eu era menina, senti um cheiro diferente pela casa. Corri pra cozinha para perguntar à minha mãe o que era aquilo. Ela respondeu: “dobradinha”.
“- Mas o que é isso, mãe?” – perguntei pra ela, já me sentindo meio mareada.
“- É bucho”, ela respondeu. Lembro que tampei as narinas com as pontas dos dedos e corri pra rua. Fiquei por lá a manhã inteira, brincando com a molecada. Mas, na hora do almoço, tive de atender ao “Vânia Maria” firme da minha mãe e entrar para comer.
Que suplício! Minha mãe é grande cozinheira, daquelas que fazem qualquer ingrediente ficar apetitoso, mas, para mim, ela nunca conseguiu – nem com todas as escaldadas, ervas, pimentas, caldos e afins – acabar com a raça do bafo que exala de um intestino de boi. Pois é, bucho é intestino! Eu demorei alguns anos para entender isso. Talvez fosse um estado de negação, já que a tal dobradinha virou uma especialidade da minha mãe e um prato muito frequente lá em casa.
Muitos anos depois, ainda na escola de Jornalismo, arrumei um emprego e fui escalada para a primeira entrevista.
O assessor de imprensa do meu entrevistado fez a gentileza de me oferecer uma carona na sua Variant azul, um carro que era uma espécie de perua, muito popular no Brasil no final dos anos 1960. Na ocasião da entrevista, estávamos em 1994…
Eu ía me controlando pelo caminho como dava: ora para segurar o riso, ora para me agarrar onde pudesse para não cair do automóvel (a manivela que um dia foi a maçaneta da porta estava quebrada, amarrada com um fio de arame). Mas o sujeito foi muito legal comigo, e se desculpou pelo caminho inteiro por ter de levar uma menina em “um carro tão antiquado”.
Ao desembarcar no meu destino, sã e salva da viagem, mal sabia eu que o meu infortúnio mesmo ainda estava por começar.
Assim que pus os pés no escritório do tal industrial, tive um dejavù olfativo. Deu um nó duplo no meu estômago: primeiro por causa da estreia como repórter, segundo porque o cheiro de bucho cozido devastou minhas narinas. Eu não imaginava que fora do reino da cozinha da minha mãe aquele odor podia parecer bem pior…
Para justificar o bafo que tomava conta do ambiente, a esposa da fonte, que estava ali como intérprete, fez a seguinte apresentação:
“ – Meu marido é espanhol e é um gourmet. Ele tem uma cozinha anexa aqui ao escritório e hoje está preparando uma dobradinha. Você está convidada para almoçar conosco depois da entrevista”.
Pausa. Não me lembro mais se o texto daquela matéria ficou bom, tampouco me recordo de detalhes da entrevista e nem qual era o assunto. Mas a palavra dobradinha ficou martelando na minha cabeça num frenesi: dobradinha, dobradinha, dobradinha! Acho que devo ter ficado em estado de choque porque não me lembro nem se comi ou não a tal buchada à moda espanhola.
Na hora de ir embora, peguei duas conduções para voltar para a redação. Meu estômago estava embrulhado demais para encarar a carona de volta na Variant ano 1968, modelo 69.
Mesmo quando criança, eu nunca fui enjoada para comer. Hoje, quase 20 anos depois dessa primeira entrevista, e com muitos anos de experiência acumulados como jornalista gastronômica, não me lembro de ter passado apuro com comida maior do que esse.
Por causa da profissão, meu paladar cresceu. Adapta-se a qualquer comida ou bebida mundo afora. Já comi carpa viva, escargot, jacaré, piranha, tartaruga, tripa e incontáveis bichos e pratos estranhos. Mas diante de um bucho, não tem jeito, não tem vinho santo que o ajude a descer pela minha garganta. Nem mesmo que seja a dobradinha preparada pelas mãos da minha mãe.