“Lê suject que recontre l’antre s’inquiete et perd, sait pour l’amour , soit pous la et perd, sait pour l’amour, sait pour la laine, la liberté de l’esprit.” Levy-Valency.

Resumo

Delimitação do campo dos conceitos utilizados:

a-      Neuroses narcísicas;

b-     Neuroses estruturais (transferenciais);

c-      Identificação narcísica com o Ego Ideal.

Sujeito suposto saber (Lacan)

Psicanalista como formação do inconsciente do analisando (lugar de projeção e transferência.)

Estruturada situação analítica.

Autores:

Jacques Allan Miller – cinco conferências.

Ballent-

Levy-Valency – Le Dia – Loque Psycanalytique.

Freud: Sonhos – Mecanismo de formação, Introdução ao Narcisismo parte III;

Técnica Psicanalítica.

Kohut – A falta básica.

O psicanalista é o ser não sendo.

Como tal só o é na medida em que pode sujeitar-se ao lugar daquele que não é. (Bion – “sem memória e sem desejo”.) Esta posição recoloca e enfatiza a importância de sua análise. O que se coloca em questão não é apenas o analista como um técnico, mas o analista enquanto sujeito.  Sua subjetividade deve estar ao máximo desalienada do desconhecimento, viabilizando, assim, o acesso á liberdade que permite o existir no aqui e agora (Li cet nunc) da espontaneidade lhe permite suportar o colocar-se entre parênteses, permitindo-lhe a escuta do desejo do outro (analisando).

Na articulação da trama do processo analítico, naquilo que o processo analítico, naquilo que o determina como válido, existe a existência do “sujeito, suposto saber” a sustentar a possibilidade do discurso analítico.

O “sujeito suposto saber” (Lacan) entendido aí como um fundamento transfenomenico da transferência.

A relação analítica, inicialmente, é basicamente assimétrica; o analisando pensa que o analista sabe aquilo que apenas ele sabe – seu Inconsciente – mas que não sabe que sabe. (quem sou eu?)

O “sujeito suposto saber” , como pivô, permite e atualiza a constituição do descanso analítico, na busca da reconstrução da estória do sujeito.  O sujeito suposto saber é “algo” que não o analista ou analisando – é o que circula.

A identificação narcísica resulta na impossibilidade de um desfecho positivo no destecer da neurose. Tal identificação nos remete ao Ego Ideal do analista. ( Introdução ao narcisismo – parte III). Ela (esta identificação narcísica) Reafirma e comprova a incapacidade de o sujeito abrir mão, no campo da libido, de uma vivencia de satisfação. Este ideal que se projeta, nada mais é que a substituição do antigo narcisismo da infância, onde o próprio sujeito é seu ideal. Sendo o Ego Ideal da ordem do imaginário (Jaques Allan Miller), e o diálogo psicanalítico, da ordem do simbólico, tal identificação anula a possibilidade de se construir um processo psicanalítico. Além disso, barra a associação livre em seu caminho para o inconsciente., Impedindo a constatação da condição de ser faltante, que é a do sujeito do inconsciente. O analista se coloca. Aí, no lugar da falta. Obtura o discurso. Apresenta-se no lugar do objeto do desejo do paciente, levando o processo analítico ao nível do imaginário (delírio)

Em linguagem freudiana – é o analista colocar-se como objeto da pulsão sexual. Para Freud (Pulsão e seus Destinos) o obj: da pulsão sexual existe apenas como representação substitutiva (metapsicologia), podendo ser, assim, qualquer um, portanto, nenhum.  O analista ao colocar-se como “hec plus ultra” (Ballinte) da experiência universal. O analista como formação do incs do analisando (lugar de projeção e transferência) foi diversas vezes afirmado na teoria freudiana. Ta na “Interpretação dos sonhos” ele – analista – é colocado como resto diurno, sendo utilizado no discurso aqui/agora como aquele (resto diurno) o é na formação do sonho manifesto.

(Introdução dos sonhos – mecanismo de formação.) Devemos ressalvar, porém, que o analista enquanto formação do inconsciente do analisando, não ocupa – como querem muitos analistas – o lugar do superego do analisando. Tal postura reduz o processo psicanalítico à era doutrinação. Esta grande distorção tem causado impasses e entraves no desenvolvimento da psicanálise. Como sintoma de tal distorção temos, por ex: a possibilidade de reconhecer, pela postura de um jovem analista, quem foi o seu didata.

Para a configuração do processo psicanalítico, como tal, faz-se mister que o analista tenha um lugar delimitado dentro da estrutura da situação. (Não é doutrinação, não é aconselhamento). É, sim, busca da desalienação do sujeito de si-mesmo, reconhecendo, enfim, o próprio desejo e tendo acesso á liberdade. Apesar de muitas vezes esquecida, existe uma estrutura específica da situação analítica. Freud define suas coordenadas:

A – analista lugar do ouvinte.

B – analisando – fala – associação livre.

O analista é o ouvinte de um discurso altamente direcionado – pelo convite a tudo dizer, sem priorizar. Este o sentido de um discurso aparentemente sem sentido – a busca do sujeito que o emite.Sabemos que o Grande corte epistemológico – clínico de Freud, foi passar do olhar para a escuta, na abordagem da histeria.

A desfocalização do olhar para a escuta tem uma história. Sua pré-história situa-se na época dos hipnotizadores da escola de Nancy Charcot e Bernheim introduzem um corte clínico-epistemológico ao ouvir e não apenas olhar o sintoma do histérico. Determina-se já não mais a pura valorização de uma figura, mas, sim, algo de subjetivo que o olhar não privilegia.

Para Charcot o falado era uma informação; para P.Tanet um material de estudo, para Freud a escuta do inconsciente. Freud determina o sentido do sintoma. “Não há gratuidade no ato humano, visto o sujeito ser sempre um emergente da cultura”. Há sempre um real determinante (inconsciente) que sustenta e da sentido ao fenomênico aparente (sintonia).

Ao detectar o perverso do olhar para o histérico, Freud instaura o poder da escuta, resgatando o poder mágico da palavra. O diálogo reconquista o lugar fundamental do drama do sujeito humano. O sintoma se revela como significante na anamnese do sujeito. O delírio passa a ser uma coerência a se decifrar. (delírio – pensamento híbrido que resulta da contaminação, do discurso razoável, pelas organizações fantasmáticas.)

Assim fica estabelecido – por Freud e a escuta – o novo conceito de inconsciente.A trama da neurose se apresenta em um discurso manifesto, que aponta para outro, latente, desconhecido do próprio sujeito consciente que o emite. Há sempre algo que nos escapa do que somos e do que da subjetividade primitiva. (além da palavra).Apesar de a palavra ser o muro, a sombra, passa a ser, também, a via que possibilita o impossível do dizer do afeto. No desvelar do latente da palavra (do sintoma) dois meios se privilegiam a fala e o silencio. Este pontua aquela, remetendo o dizer á ordem da significação. O discurso psicanalítico, em seus primórdios, revela a estreita aliança entre psicanálise e histeria, havendo uma vinculação de dependência. Toda “cura” passa, necessariamente pela histerização.

Voltando ao enquadre teórico da escuta psicanalítica, ressaltamos os dois elementos envolvidos:

Psicanalista – atenção igualmente distribuída (nada será privilegiado na escuta).

Analisando – associação livre.

Estes dois elementos envolvidos:

Psicanalista – atenção igualmente distribuída (nada será privilegiado na escuta).

Analisando – associação livre. Estes dois elementos tornam o que chamamos – regra básica da psicanálise. (Diálogo)

Em “ conselhos a um jovem médico” 1912 – artigos técnicos – Freud diz: “não tentar reter especialmente nada e acolher tudo com igual atenção flutuante… “eliminamos, assim,  nossas esperanças ou as nossas tendências.”

Esta é a maneira de o analista se libertar das prisões do pensamento sistematizado  e reflexivo, que impede o aparecimento da subjetividade espontânea do sujeito. É o liberar-se da “camisa de força” do saber.

É preciso conceitualizar a práxis clínica, mas não tentar enquadrar o analisando em conceitos teóricos. Estes, como sabemos, na psicanálise são um segundo tempo.

O primeiro é a prática clínica, o emergente da situação, no segundo tempo sistematiza-se e teoriza-se esta prática.

Associação livre é o que caracteriza a fala do analisando. Ao colocar-se o convite ao “tudo dizer”, com o mínimo possível de censura ou crítica de valor, o discurso torna-se preso a leis essenciais do inconsciente. Ao determinar esta dependência do ordenamento da fala ao inconsciente, Freud se apóia na tendência inextrincável do recalcado a se manifestar. O inconsciente é sempre inseparável do dinamismo que o constitui. “Retrait d’une part, mas aussé expression – “(levy valency).

As leis do inconsciente darão sentido a um discurso aparentemente sem sentido.

A ausência da ordenação sujeita ás leis da lógica do consciente – no falar – permite o desvelar da lógica do inconsciente. A estrutura do diálogo psicanalítico escapa, assim, à circularidade alucinatória de dois elementos, (2 egos) passando-se, assim, a nível do inconsciente.

A alucinação se marca no fato de se dar entre apenas dois (nível imaginário). Exclui o 3º- a cultura.

Importa-nos, talvez, lembrar aqui o “princípio de realidade”, sua função. Princípio de realidade é o que impede a impactação no pólo alucinatório (Bebê que alucina o seio) cuja permanência conduz á morte.

Princípio de realidade surge de dentro para fora e não ao contrário como somos tentados a pensar. Ele está ligado á própria sobrevivência do sujeito, sendo sua garantia.

Esta impactação tem  também com outra forma de organização psíquica – neuroses narcísicas – que não se marcam como nas neuroses estruturais, pela presença do conflito. P.R liga-se a Eros no sentido de permanecer vivo, opondo-se a Thanatos.

Freud em “Esquema da psicanálise – parte IV – diz:…” acontecimentos internos como os imaginativos e os ideativos podem tornar-se conscientes, sendo necessário, para isso, um mecanismo especial para distinguir entre as duas possibilidades… é a verificação da realidade.”

“A equação percepção igual mundo externo não é válida. Os erros que podem aparecer, facilmente, e, assim, ocorre correntemente em devaneios se denominam alucinações.”

Outro aspecto importante do discurso analítico, em sua especificidade de escuta, é a necessidade de se afastar a função essencialmente médica do diagnóstico. A suspensão do diagnóstico é que possibilita a experiência analítica que é sempre impar, não generalizável. Freud reforça sempre a importância da conceitualização da prática, onde a teoria, dada por profundamente conhecida, deve permanecer ausente. Cada caso deve começar como se fosse o primeiro. Essa uma das especificidades da relação psicanalítica. Cada uma delas é impar no sentido de dois inconscientes que fluem, em um diálogo único.

A rotinização do psicanalista é imprensável, conduzindo, somente, á fossilização de uma teoria que só o é (teoria) na medida em que emerge de uma práxis da aqui e agora.

O desvanecimento do saber constituído é imprescindível a um começo autentico da experiência analítica. Impede, também, que o analista se deixe enredar nos efeitos aprisionantes do “sujeito suposto saber” intrínseco ao processo. Intrínseco enquanto fundamento transfenomenico da transferência.