O analista, assim, se resguarda de confundir e sobrepor a dimensão fenomenológica e a dimensão estrutural.

Em “Esquema da psicanálise” (1938) Freud diz a situação psicanalítica constituir um pacto entre o analista e o ego debilitado do paciente nas lutas contra as pressões do Id e do superego.

No mesmo trabalho, após discorrer sobre a ambivalência da transferência, critica o risco de o analista colocar seu desejo na relação.

A escuta psicanalítica depurada da identificação do analista com o “sujeito suposto saber”, despojada do desejo do analista da o sentido da significação do inconsciente do analisado.

Bion nos diz de um lugar “sem memória e sem desejo”, como sendo o lugar do analista. Do sem memória e sem desejo não de um cadáver, mas de testemunha viva de um existir ativo além do fenômeno aparente (o inconsciente) que se revela e se crê dizendo a verdade, só há a verdade do desejo, daí a cultura necessariamente ter de ser colocada entre parênteses nesse processo em direção ao sujeito do inconsciente, em direção ao “quem sou eu” do analisando. Nesse tempo que se faz entre a vida e a morte – já então entendidas como partes de uma unidade como um todo intrinsecamente unido e significado organicamente pela atemporalidade do inconsciente, constitui-se, assim, no espaço da liberdade e do prazer.

Ao falar da estrutura da situação psicanalítica, falamos de uma triangulação do discurso.

B-A-C-B…    : B fala a A, que remete a C, retornando a B.

( C seria o sujeito suposto saber) A escuta de A, direciona a fala de B. Para Lacan A estaria em lugar do grande Outro. Desta maneira a fala de B, seria remetida a C, lugar da falta, visto não pertencer a A nem a B.

A fala de B é a demanda de “quem sou”. Qual o meu desejo?

A transferência possibilita a fluir desse discurso. Ela resignifica os sintomas (neurose de transferência), permitindo sua passagem ao simbólico, ou, dito de outra forma: a passagem pela significação fálica. Fazendo uma analogia com o campo das ciências biológicas teríamos: Célula viva para assim permanecer precisa estar imersa em um ambiente vital, que atenda as exigências básicas para tal. Em experimentos com células vivas, separadas do organismo, cria-se, artificialmente, tal ambiente, o que permite a manipulação da célula. No processo analítico a transferência instaura esse ambiente ideal, onde a neurose transferencial, surgida em lugar da neurose original, possibilita a instrumentalização dos conflitos, os insights e a superação dos sintomas. Esses, agora, possíveis de serem integrados à história do sujeito, pela revivencia no aqui e agora. O preenchimento das lacunas da memória conduz á cura no sentido da retomada, pelo sujeito, do lugar de seu desejante, como sujeito. Nada se combate “In absentia et in esfingie” diz Freud (Repetir, Recordar, Elaborar).  A transferência atualiza no sentido de tornar ato, as vivências afetivas que, por pertencerem a uma época em que o Ego não podia fazer face as mesmas e integrá-las, simbolicamente, agiram, assim, com o efeito traumático. Permanecendo fora do simbólico e da palavra só se revelam sintomaticamente. Fora do campo da consciência (interdito – não dito – sintoma) destina-se se repetir indefinidamente. (o inconsciente só repete). A transferência transforma (no sentido de ultrapassar uma forma) o pré-texto em texto, onde o interdito é dito e o conflito se supera. Palavra é sintonia (sempre), mas o sintoma patológico só se elimina ao ser colocado na palavra. (La angage aliene – valency – pg 29 – citação 4).

Conclusão: O psicanalista ocupando seu lugar no interjogo transferencial, está em contato com os 3 aspectos da (repetição, resistência e sugestão) além da ambivalência que lhe é própria ( a ela: transferência).

Em “repetir, recordar e elaborar” – Freud afirma o surgimento, na transferência, da compulsão á repetição, repetição estereotipada do passado não lembrado. A quebra da estereotipia, pela revivencia elaborada, permite a recuperação da palavra mal dita (nos 2 sentidos). Para que tal processo se viabilize indispensável é que o analista mantenha uma postura neutra. Venha não significando vazia de afeto, mas onde seu desejo (do analista) enquanto sujeito, se mantenha em suspensão. A neutralidade do analista parece ser um dos conceitos perturbadores do desenvolvimento da técnica psicanalítica. Neutralidade não é ausência de afeto. Freud ao falar da frustração exigível no processo de análise, não se refere a falta de afeto do analista, mas no sentido de impedir-se uma gratificação – no aqui e agora – que nada mais seria que a submissão a intensidade imatura da pulsão infantil, que se repete na vivência transferencial. Tal satisfação conduziria a um reforço da neurose inicial, impedindo a sublimação das pulsões infantis. Neutralidade é, na verdade, um marco técnico – teórico. Não a ausência de afeto, sim o equilíbrio da satisfação que permite a continuação do processo analítico e não um reforço das exigências pulsionais imaturas. Ballint – “não significa, na psicanálise que o analista tenha obrigação de compensar o paciente de suas privações anteriores e oferecer-lhe mais cuidado, mais amor, mais afeto do que lhe deram os pais (quando o analista tenta fazê-lo o processo fracassa)”.  O que o analista deve dar durante o tempo suficientemente livre de tentações, estimulas e exigências exteriores, inclusive as que possam ter origem no próprio analista. A finalidade é que o paciente chegue a encontrar-se a si mesmo, aceitar-se e assumir sua história de vida”“. O processo psicanalítico pode, sob este aspecto, ser compreendido como um espaço no qual se coloca a vida entre parênteses.

De qual vida se trata?

Qual o papel do analista nesta suspensão transitória da cultura, do sistema vigente em tal estrutura política em tal país?  Freud responde dizendo que a transferência cria esta zona intermediária entre a enfermidade (neurose) e a vida, através da qual vai-se fazendo a passagem da 1º para a 2º. Do lugar de objeto para o de sujeito. (sujeito ao próprio desejo). Mas qual o lugar do analista nesta vida a qual Freud se refere? O que fazer de seus mitos restringindo-os a apenas um – a psicanálise. Em “observações sobre o amor de transferência” Freud recoloca o lugar do “não ser” do analista; o enamoramento do paciente depende, exclusivamente, da situação analítica e não pode ser atribuída aos próprios atrativos pessoais do analista… Podem ser manifestações de resistência… Tornando mais acentuada a ação da repressão…”“. Novamente, aqui, se recoloca a importância da análise do analista que deverá manter-se neste lugar basicamente solitário, servindo de suporte para o desenrolar da revivencia da história pessoal do outro.  Suporte como, por exemplo, a água suporta o navio: com atrito necessário, mas sem interferir.  Como se nomear psicanalista do processo? Não seria ele – o analista – aquele que se vai fazendo no fio condutor de um diálogo específico. Diálogo este que permite ao analisando ver-se como sujeito, exorcizando os fantasmas do “não eu” que se fundiam e se confundiam impedindo a percepção de um eu separado de um “não eu”. Eliminando ao máximo o desconhecimento inicial do sujeito sobre si mesmo. Como tal não será o psicanalista apenas um mito? Algo que deve ser incessantemente ré-criado (na relação analítica) para que, em nunca sendo – ser? Não será esta a angústia a que nos remete o processo de formação psicanalítica, nos reconduzindo ao interminável do desfiladeiro da significação; que nos conduz ao tesouro, que ao ser atingido se revela como falta?  “O sujeito humano é marcado pela falta. “ A castração é da sua essencialidade.